Relatório de monitoramento
No arco Cobaias da Inovação, a lógica permanece simples e profundamente científica. Se algo não pode ser medido, monitorado ou convertido em gráfico, então passa a ser suspeito. Aqui, pessoas não trabalham. Elas performam indicadores. E qualquer desvio ocular acima de três segundos já é tratado como risco operacional relevante.
Nesta tirinha, a inovação chega na forma de vigilância premium. Um dispositivo que promete foco total, alinhamento estratégico da rotina e engajamento visual contínuo. Piscar virou gargalo. Olhar pela janela, desperdício. Pensar em outra coisa, quase um ato subversivo. Tudo isso, claro, pelo bem do colaborador e do EBITDA.
Rex apresenta a solução com entusiasmo tecnológico. Silva tenta não piscar. O sistema agradece. O relatório também. O que a peça expõe com precisão é uma distorção conhecida, a conversão de atenção humana em dado bruto de conformidade. Não basta entregar. É preciso parecer integralmente absorvido, contínua e visualmente alinhado ao trabalho.
O problema não é a caricatura. É a direção do raciocínio. Em muitos ambientes, o controle já deixou de mirar apenas resultado e passou a avançar sobre comportamento, presença, expressão, tempo de tela, padrão de resposta e agora, com grande potencial de mercado, até a direção do olhar. O argumento é sempre eficiência. O efeito costuma ser outro, mais vigilância, menos autonomia e crescente naturalização do absurdo.
No fim, ninguém sabe se o trabalho melhorou, mas o controle está impecável. E esse costuma ser o verdadeiro KPI do experimento. Se você achou exagerado, ótimo. A inovação agradece. Se achou familiar, bem-vindo ao programa piloto.
E na sua empresa? O foco está sendo desenvolvido com critério ou a vigilância já começou a se apresentar como cuidado tecnológico?
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Marcadores
Cobaias da Inovação- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários