Pular para o conteúdo principal
A Amostragem Perfeita: Aleatoriedade, Seleção Direcionada e o que o Relatório Precisa Dizer | Auditossauros
Vol. 1 · Metodologia de Auditoria · Artigo 17

A Amostragem Perfeita aleatoriedade, seleção direcionada e validade de evidência

Quando a amostra "aleatória" encontra exatamente os 5% mais problemáticos, o humor revela uma questão metodológica séria: o que foi efetivamente testado, e sobre o que o relatório pode concluir?

Auditossauros · A Amostragem Perfeita · jcn 07-25
Auditor A "Vamos fazer uma amostragem científica. 5% dos processos."
Auditor B "Interessante... nossa seleção aleatória pegou exatamente os 5% mais problemáticos."
Auditor A "Será que existe alguma força magnética entre auditores e problemas?"
Tirinha original · Auditossauros · Jacson Cruz do Nascimento
Métodos de Amostragem NBC TA 530
Aleatória Simples Cada item tem igual probabilidade de seleção
Inferência ao universo
Estratificada Universo dividido em estratos antes da amostragem
Inferência por estrato
MUS Monetary Unit Sampling, cada unidade monetária como item
Foco em valor alto
Seleção Direcionada Itens escolhidos por julgamento, sem aleatoriedade
Sem inferência ao universo
Sistemática Intervalo fixo a partir de ponto aleatório inicial
Inferência condicionada
Fonte: NBC TA 530 · CFC · Brasil
01O Problema

A piada é sobre metodologia

A tirinha não é sobre sorte. É sobre um problema real que aparece com frequência em relatórios de auditoria: a amostra foi descrita como aleatória, mas o processo de seleção foi guiado por julgamento profissional. O resultado parece scientificamente fundamentado porque usa o vocabulário da amostragem estatística. Mas as conclusões que o relatório extrai da amostra podem não ser válidas para o universo que não foi testado.

Isso não é necessariamente má-fé. O ceticismo profissional do auditor opera como um filtro eficiente: a experiência acumulada dirige a atenção para onde o risco provavelmente está. Quando essa direção é formalizada como amostragem aleatória, surge um problema de validade, não de intenção.

A questão metodológica que a tirinha coloca é precisa: se a seleção não foi aleatória, o que exatamente foi testado? Os 5% selecionados, ou a hipótese de que esses 5% são representativos do universo? E o relatório faz essa distinção com clareza suficiente para que o leitor saiba o que está sendo afirmado?

Este artigo percorre os principais métodos de amostragem em auditoria, as condições de validade de cada um, quando a seleção direcionada é legítima e, principalmente, o que o relatório precisa documentar para que as conclusões sobre a amostra sejam defensáveis.

02Os Métodos

Sete métodos, sete fichas com condições de validade

I
Amostragem Aleatória Simples Simple Random Sampling · Base estatística da NBC TA 530 · Cada item com igual probabilidade
Inferência plena
O que é

Na amostragem aleatória simples, cada item do universo tem exatamente a mesma probabilidade de ser selecionado. A seleção é feita por gerador de números aleatórios aplicado à listagem completa dos itens do universo, sem filtro prévio por critério de risco. É o único método que permite inferência estatisticamente válida sobre o universo não testado, com nível de confiança e margem de erro definidos. O tamanho da amostra é calculado antes da seleção, com base em três parâmetros: nível de confiança desejado, taxa de desvio tolerável e taxa de desvio esperada.

Quando usar em auditoria
  • ✦ Testes de controles onde o objetivo é estimar a taxa de desvio do universo
  • ✦ Populações homogêneas onde o risco está distribuído uniformemente
  • ✦ Quando o relatório precisa afirmar "com X% de confiança, a taxa de desvio do universo é inferior a Y%"
  • ✦ Exigência contratual ou regulatória de amostragem estatística documentada
Parâmetros de dimensionamento (método de atributos) Tamanho da amostra (n) depende de três variáveis:
Nível de confiança (tipicamente 90%, 95% ou 99%)
Taxa de desvio tolerável: máximo aceitável sem qualificar o controle
Taxa de desvio esperada: estimativa baseada em histórico ou conhecimento prévio

Exemplo: confiança 95%, tolerável 8%, esperada 2% → n ≈ 73 itens
Confiança 95%, tolerável 5%, esperada 0% → n ≈ 59 itens

Quanto menor a taxa tolerável ou maior a confiança exigida, maior a amostra necessária.
Atenção: a validade da inferência depende de que a amostra seja efetivamente selecionada de forma aleatória, com gerador de números, e de que o universo esteja completamente listado antes da seleção. Se o universo não estava completo ou a seleção foi feita por conveniência, a base estatística não sustenta as conclusões.
A amostragem aleatória simples não encontra mais problemas. Encontra uma estimativa defensável de quantos existem.

Voltar ao topo ↑

II
Amostragem Estratificada Stratified Sampling · Universo dividido em estratos antes da seleção · Eficiência com rigor
Inferência por estrato
O que é

A amostragem estratificada divide o universo em grupos homogêneos (estratos) antes de realizar a amostragem. Dentro de cada estrato, a seleção é aleatória. O objetivo é reduzir o tamanho total da amostra mantendo o rigor estatístico, concentrando esforço onde o risco é maior. Por exemplo: em uma população de pagamentos, estratificar por faixa de valor (abaixo de R$10k, entre R$10k e R$100k, acima de R$100k) e amostrar proporção maior no estrato de alto valor. As conclusões do teste são válidas estrato a estrato, não necessariamente para o universo consolidado.

Quando usar em auditoria
  • ✦ Populações heterogêneas onde o risco varia entre grupos
  • ✦ Quando se quer cobrir 100% do estrato de maior valor e amostrar os demais
  • ✦ Testes substantivos de valores monetários combinados com testes de controles
  • ✦ Auditoria de contratos: estratificar por modalidade, valor e ano de assinatura
Atenção: a amostragem estratificada requer que os estratos sejam definidos antes da seleção, com base em critérios documentados. Definir os estratos depois de olhar os dados, ajustando as faixas para que os itens problemáticos fiquem em estratos de alta cobertura, invalida o método e é, na prática, seleção direcionada com aparência de rigor estatístico.
Estratificar antes é metodologia. Estratificar depois de ver os dados é racionalização.

Voltar ao topo ↑

III
MUS, Monetary Unit Sampling Amostragem por unidade monetária · Probabilidade proporcional ao valor · Foco em erros monetários
Foco em alto valor
O que é

No MUS, a unidade amostral não é o documento (nota fiscal, pagamento), mas a unidade monetária. Cada real do universo tem igual probabilidade de ser selecionado, o que significa que itens de maior valor têm maior probabilidade de cair na amostra, proporcionalmente ao seu valor. Na prática: um pagamento de R$100.000 tem 100 vezes mais chance de ser selecionado do que um de R$1.000. O MUS é particularmente eficiente para testes substantivos onde o objetivo é estimar o total de erros monetários no universo.

Quando usar em auditoria
  • ✦ Testes substantivos de saldos contábeis e de valores de contratos
  • ✦ Quando erros grandes têm impacto desproporcionalmente maior que erros pequenos
  • ✦ Populações com grande variação de valor onde a aleatória simples seria ineficiente
  • ✦ Quando o objetivo é estimar o total monetário de erros com nível de confiança definido
Intervalo de amostragem MUS Intervalo (I) = Valor total do universo ÷ Tamanho da amostra (n)

Exemplo: universo de R$10.000.000, n=60
I = 10.000.000 / 60 = R$166.667

Selecionar ponto de partida aleatório entre R$1 e R$166.667, depois somar o intervalo sucessivamente. Cada "unidade monetária" que cai no intervalo leva o documento que a contém para a amostra. Documentos com valor maior que o intervalo são selecionados com certeza.
Atenção: o MUS superestima a distorção total quando os erros identificados na amostra são menores que o intervalo de seleção. Ele foi projetado para ser conservador, favorecendo o auditor. Mas em populações onde os erros são sistematicamente pequenos e frequentes, o MUS pode ser menos eficiente que a amostragem estratificada.
No MUS, o valor guia a seleção. Itens grandes não escapam por acaso.

Voltar ao topo ↑

IV
Seleção Direcionada Julgamento profissional aplicado à seleção · Legítima quando bem documentada · Sem inferência ao universo
Sem inferência ao universo
O que é e quando é legítima

A seleção direcionada (ou por julgamento) seleciona itens com base em critérios de risco definidos pelo auditor: todos os itens acima de determinado valor, transações em períodos específicos, itens com características que os tornam mais propensos a erros. Ela é metodologicamente legítima quando o objetivo é testar itens específicos de alto risco, não quando o objetivo é inferir sobre o universo. A distinção é fundamental: a seleção direcionada pode encontrar problemas de forma eficiente. Não pode afirmar que o universo não testado está livre de problemas.

O problema metodológico da tirinha
  • ✦ A amostra foi descrita como "aleatória", mas o resultado sugere seleção direcionada
  • ✦ Se foi direcionada, o relatório não pode concluir sobre o universo completo
  • ✦ A conclusão válida é: "dos itens testados, X% apresentaram desvio"
  • ✦ A conclusão inválida é: "estimamos que X% do universo apresenta desvio"
  • O problema não é ter selecionado os itens problemáticos. É chamar isso de aleatório.
O erro mais comum: usar linguagem de amostragem estatística ("amostragem científica", "seleção aleatória", "nível de confiança de 95%") para descrever uma seleção que foi, na prática, direcionada por julgamento. Isso não é desonestidade, é imprecisão metodológica, mas o impacto nas conclusões é o mesmo: a inferência sobre o universo não está sustentada.
Seleção direcionada bem documentada é metodologia legítima. Seleção direcionada chamada de aleatória é problema de evidência.

Voltar ao topo ↑

V
Amostragem em Auditoria de TI Logs, acessos e controles automatizados · Populações digitais · Universo completo vs. amostra
Contexto digital
O que muda em TI

A auditoria de TI trabalha com populações digitais que têm características distintas das populações documentais: volume muito maior (milhões de registros de log, trilhas de acesso), controles automatizados que executam a mesma lógica para cada transação, e possibilidade de testar o universo completo em vez de amostrar. Quando um controle é automatizado e aplicado uniformemente pelo sistema, testar 25 transações pode ser suficiente para confirmar que o controle está funcionando, porque se funciona para uma transação funciona para todas (o risco não está na execução do controle, está na sua configuração).

Implicações para amostragem
  • Controles automatizados: amostra menor é defensável porque o controle é uniforme. O teste confirma que o controle está ativo, não que ele funciona caso a caso
  • Logs de acesso: universo completo é preferível; SQL e ferramentas CAATT permitem testar 100% sem custo adicional relevante
  • Exceções em controles manuais dentro de TI: exigem amostragem proporcional ao volume de exceções
  • Mudanças de configuração: cada mudança é um evento único, não amostrado
Atenção: a premissa de que "controle automatizado = amostra menor" só vale quando há evidência de que o controle é efetivamente uniforme e de que não houve exceções manuais ao longo do período. Exceções ao controle automatizado são exatamente onde o risco se concentra, e precisam ser identificadas antes de reduzir o tamanho da amostra.
Em TI, a questão não é quantos testar. É confirmar que o controle não teve exceções não documentadas.

Voltar ao topo ↑

VI
Amostragem Sistemática Intervalo fixo a partir de ponto inicial aleatório · Prática e amplamente usada · Risco de periodicidade
Inferência condicionada
O que é

Na amostragem sistemática, o auditor seleciona um ponto de partida aleatório dentro do primeiro intervalo e depois seleciona itens em intervalos fixos ao longo do universo ordenado. Se o universo tem 1.000 itens e a amostra é de 50, o intervalo é 20. Seleciona-se um número aleatório entre 1 e 20 (por exemplo, 7) e depois os itens 7, 27, 47, 67... São práticas, amplamente aceitas pela NBC TA 530, e produzem inferência estatística válida com uma condição importante: que o universo não tenha padrão que coincida com o intervalo de amostragem.

O risco de periodicidade
  • ✦ Se pagamentos são processados em ciclos (semanal, quinzenal) e o intervalo de amostragem coincide com esse ciclo, a amostra pode sistematicamente incluir ou excluir um tipo específico de transação
  • ✦ Exemplo: intervalo de 5 dias em universo com padrão semanal (aprovações às sextas) pode nunca selecionar uma aprovação de sexta
  • Solução: verificar se o universo tem padrão de ordenação antes de definir o intervalo
Atenção: a sistemática é frequentemente descrita como "aleatória" porque tem ponto de partida aleatório. Ela produz inferência válida na maioria dos contextos, mas a validade está condicionada à ausência de periodicidade no universo. Documentar essa verificação no papel de trabalho.
Sistemática é eficiente. O intervalo não pode ser um espelho involuntário do ciclo do processo.

Voltar ao topo ↑

VII
O que o Relatório Precisa Dizer Documentação do método · Extensão das conclusões · O que foi testado vs. o que foi concluído
Documentação
Elementos obrigatórios

O relatório de auditoria que faz referência a uma amostra precisa documentar, no mínimo: o universo completo (total de itens e valor total), o tamanho da amostra e como foi determinado, o método de seleção (aleatório simples, estratificado, MUS, sistemático ou por julgamento), os parâmetros estatísticos quando aplicáveis (nível de confiança, taxa tolerável, taxa esperada) e a extensão das conclusões, ou seja, se as conclusões valem para o universo completo ou apenas para os itens testados.

Linguagem de conclusão por método
  • Aleatória simples / MUS: "Com 95% de confiança, a taxa de desvio do universo de X.XXX itens é inferior a Y%"
  • Estratificada: "No estrato de alto valor (acima de R$X), testamos Y% dos itens e encontramos..."
  • Direcionada: "Foram selecionados X itens com base em critérios de risco [descrever critérios]. Dos itens testados, Y apresentaram desvio. As conclusões não se estendem ao universo não testado."
  • Universo completo: "Foram testadas todas as X transações do período"
O que o papel de trabalho deve registrar 1. Definição do universo: listagem completa, data de extração, total de itens e valor total
2. Método de seleção: como foi feita, qual ferramenta, semente do gerador se aleatório
3. Parâmetros: nível de confiança, taxa tolerável, taxa esperada, tamanho calculado
4. Resultado: quantos itens foram testados, quantos apresentaram desvio, valor total dos desvios
5. Conclusão: o que se pode afirmar sobre o universo dado o resultado da amostra, com as limitações explícitas
Atenção: o erro mais frequente é concluir sobre o universo com base em seleção direcionada. O segundo erro mais frequente é não documentar o método, de forma que o leitor do relatório não consegue avaliar a validade das conclusões. Os dois problemas têm o mesmo efeito: a evidência não sustenta o que foi afirmado.
O relatório não descreve apenas o que foi encontrado. Descreve o que foi testado, como foi selecionado e sobre o que se pode concluir.

Voltar ao topo ↑

✦ guia de decisão ✦
03Guia de Decisão

Qual método usar para cada objetivo de auditoria

Método Inferência ao universo Foco em alto risco Eficiência amostral Aceitação normativa
Aleatória Simples✓ PlenaBaixaModerada✓ NBC TA 530
Estratificada✓ Por estratoAltaAlta✓ NBC TA 530
MUS✓ MonetáriaAltaAlta✓ NBC TA 530
DirecionadaNãoMáximaAltaCondicionada
SistemáticaCondicionadaBaixaAlta✓ NBC TA 530
Universo Completo✓ TotalMáximaDepende do volume✓ Preferível
Método Conclusão válida Conclusão inválida
Aleatória Simples"Com 95% de confiança, a taxa de desvio do universo é inferior a X%""Os 30 itens testados representam o universo de 10.000 processos"
Estratificada"No estrato de alto valor, todos os 40 itens testados estavam conformes""O universo consolidado está conforme com base nos estratos testados"
MUS"A distorção provável do universo é inferior a R$X com 95% de confiança""Não há erros no universo porque a amostra MUS não encontrou erros"
Direcionada"Dos 25 itens de alto risco testados, 8 apresentaram desvio""O controle falhou em X% dos casos no período" (inferindo sobre o universo)
SistemáticaMesma que aleatória simples, quando sem periodicidadeInferência plena quando há risco de periodicidade não verificado
A Regra da Tirinha
Quando a amostra encontra exatamente o que o auditor suspeitava encontrar, há duas possibilidades metodológicas legítimas: (1) O ceticismo profissional foi bem calibrado e a seleção aleatória confirmou a hipótese: nesse caso, a inferência sobre o universo é válida. (2) A seleção não foi aleatória, foi guiada pela hipótese. Nesse caso, a amostra confirma a hipótese nos itens testados, mas não permite inferir sobre o universo. A distinção entre os dois casos está no processo de seleção, não no resultado. O relatório precisa descrever o processo de forma que o leitor consiga determinar qual das duas situações se aplica.
04Relação com Auditoria

O que a amostragem revela sobre quem amostra

A forma como um auditor define e documenta sua amostragem revela muito sobre sua compreensão dos limites da evidência que está coletando. Um auditor que usa seleção direcionada e a documenta como tal, com os critérios explícitos e as conclusões limitadas aos itens testados, demonstra precisão metodológica. Um auditor que usa seleção direcionada e a chama de aleatória, seja por imprecisão de linguagem ou por hábito, cria uma lacuna entre o que foi feito e o que o relatório afirma.

A NBC TA 530 é clara a esse respeito: a seleção por julgamento não é estatisticamente representativa e, portanto, não permite ao auditor extrapolar resultados para o universo não amostrado. Isso não invalida a seleção direcionada como método. Invalida apenas as conclusões sobre o universo que não foram sustentadas pelo processo de seleção.

O auditor experiente não tem força magnética para problemas. Tem um modelo mental calibrado que direciona a atenção para onde o risco provavelmente está. A diferença entre os dois é que o modelo mental pode ser documentado, verificado e, quando correto, produz evidência válida. A força magnética, não.
Auditossauros · Volume 1 · A Amostragem Perfeita
05Conexão · Auditossauros Vol. 1

O dinossauro que encontrou os 5% mais problemáticos e precisou explicar como

A tirinha que originou este artigo não é sobre coincidência. É sobre o acúmulo silencioso de critérios de seleção que operam antes mesmo de o auditor decidir conscientemente o que vai testar.

Todo auditor com experiência acumula um repertório de sinais: o fornecedor cujo nome aparece muitas vezes com valores diferentes, o aprovador que assina tudo acima do limite, o mês de dezembro que concentra pagamentos que deveriam estar distribuídos. Esses sinais são ativos profissionais valiosos. O problema não é usá-los para direcionar a atenção. O problema é descrevê-los como aleatoriedade depois.

A série Auditossauros explora a tensão entre o que o auditor sabe de forma intuitiva e o que consegue documentar de forma metodicamente defensável. A amostragem é o ponto onde essa tensão se manifesta com mais clareza, porque é o ponto onde o relatório faz afirmações sobre o que não foi visto com base no que foi.

Este artigo conecta-se diretamente com o Artigo 12 (Laboratório de Dados), que aborda amostragem estatística no contexto de ferramentas quantitativas, e com o Artigo 10 (Quem Audita o Auditor), que examina os vieses do próprio auditor como sujeito da análise.

06Reflexão Final

A amostra foi perfeita. A documentação foi que falhou.

Se o auditor da tirinha encontrou os 5% mais problemáticos, ele pode ter feito algo muito correto: identificou o subconjunto de maior risco e concentrou o trabalho de campo onde a probabilidade de achados era maior. Isso é ceticismo profissional funcionando bem. É exatamente o que os padrões de auditoria incentivam.

O que falhou, se é que falhou algo, foi a descrição do que foi feito. Chamar de "amostragem científica" ou "seleção aleatória" uma seleção que foi, na prática, guiada por julgamento cria uma expectativa sobre as conclusões que o método não sustenta. O leitor do relatório assume que as conclusões valem para o universo completo. Elas valem apenas para os 5% que foram testados.

A correção não exige mudar o método. Exige mudar a linguagem. "Selecionamos 5% dos processos com base em critérios de risco" é uma afirmação metodologicamente defensável. "Os itens selecionados apresentaram taxa de desvio de X%" é uma conclusão válida. "Portanto, estimamos que X% do universo apresenta desvio" é uma extrapolação que o método não autoriza.

A força magnética entre auditores e problemas é real. Ela se chama experiência. E experiência bem documentada é metodologia.

Ref.Referências e Normas

Referências verificadas

[1]
CFC, Conselho Federal de Contabilidade. NBC TA 530: Amostragem em Auditoria. Norma brasileira baseada na ISA 530 do IAASB.
↗ NBC TAs no CFC
[2]
IAASB, International Auditing and Assurance Standards Board. ISA 530: Audit Sampling. Norma internacional original da qual a NBC TA 530 é derivada.
↗ ISA 530 (IAASB)
[3]
AICPA, American Institute of CPAs. AU-C Section 530: Audit Sampling. Norma americana equivalente com orientações adicionais sobre MUS.
↗ AU-C 530 (PDF)
[4]
IIA, The Institute of Internal Auditors. Global Internal Audit Standards (GIAS) 2024. Seções sobre suficiência e adequação de evidências em auditoria interna.
↗ IIA GIAS 2024
[5]
Elder, Randal J.; Beasley, Mark S.; Arens, Alvin A. Auditing and Assurance Services: An Integrated Approach. 17th ed. Pearson, 2022. Capítulos 13 e 14 sobre amostragem estatística e por julgamento.
↗ Amazon
[6]
Nascimento, Jacson Cruz do. Auditossauros: A Amostragem Perfeita. Tirinha original que originou este artigo. jcn 07-25.
↗ Blog Auditossauros
A NBC TA 530 é a norma aplicável a auditorias independentes no Brasil. Para auditoria interna, os Global Internal Audit Standards do IIA (2024) fornecem orientação sobre suficiência de evidências. Os dois referenciais são compatíveis nos princípios de amostragem, com variações na terminologia e nos detalhes de implementação.
Amostragem AuditoriaNBC TA 530ISA 530 MUSSeleção DirecionadaAmostragem Estratificada Ceticismo ProfissionalEvidênciaViés de Confirmação MetodologiaVolume 1Tirinha
📈

Auditossauros Volume 1

A série que encontrou os 5% mais problemáticos, perguntou por que, e aprendeu a diferença entre ceticismo bem calibrado e amostragem mal documentada.

Auditossauros  ·  A Amostragem Perfeita · Vol. 1 · Artigo 17  ·  auditossauros@gmail.com

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Kit de Campo do Auditor 2: 10 Ferramentas para Testes, Evidências, Controles e Planos de Ação

🦖 Auditossauros Auditoria interna Riscos, controles e evidências O Kit de Campo do Auditor 2 10 ferramentas para testes, evidências, controles e planos de ação Ideia central: ferramenta de auditoria não é enfeite metodológico. Ela precisa ajudar a formular uma pergunta melhor, produzir evidência verificável ou deixar rastro suficiente para sustentar uma conclusão. Este segundo kit avança do diagnóstico para o trabalho de campo: testes, controles, responsabilidades, dados, lacunas e follow-up. 🦖 Kit de Campo ✓ Teste 📄 Evidência ⚙ Controle Auditoria não...

O Kit de Campo do Auditor: 8 Ferramentas para Auditoria, Processos e Riscos | Auditossauros

O Kit de Campo do Auditor: 8 Ferramentas para Auditoria, Processos e Riscos | Auditossauros 🦕 Auditoss auros Vol. 1 · Ferramentas de Auditoria · Artigo 11 Vol. 1 · Auditoria e Processos · Artigo 11 O Kit de Campo do Auditor Oito ferramentas · Como usar · Onde falham Ferramentas analíticas não são neutras. Cada uma foi desenhada para um tipo de problema e carrega pressupostos que precisam ser entendidos antes de confiar nos resultados que ela produz. Inventário de Campo 01 Análise SWOT Diagnóstico 02 Mapa Mental Planejamento 03 5 Porquês Causa-Raiz 04 Fluxograma Processos 05 Ishikawa Causa-Raiz 06 Design Thinking Solução 07 Benchmarking Comparação 08 Matriz de Risco Priorização N S L O 🧭 Kit de Campo /span> Auditossauros · Vol. 1 Ferramentas mapeadas 08 Us...

🦖 O Bode na Sala — Quando a Auditoria Decide Encarar o Cheiro

Auditossauros · One-Shot · Auditoria Interna O Bode na Sala Quando a auditoria decide encarar o cheiro, o problema deixa de ser fofoca de corredor e vira assunto de governança. 🦖 Humor corporativo 🎯 Risco real 📋 Auditoria interna 🧭 Cultura de transparência Tirinha Risco central Por que importa Checklist FAQ Leituras relacionadas A tirinha Encarar o problema cedo evita que o "cheirinho" vire meteoro no relatório de auditoria. Quando o problema já está na sala Toda organização tem um bode. Às vezes ele aparece como controle frágil. Às vezes como processo sem dono. Outras vezes como risco antigo, conhecido, comentado em voz baixa e...