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Eleições e Desempenho Bancário no Brasil: Evidências Empíricas de 2000 a 2023 | Auditossauros

Eleições e Desempenho Bancário no Brasil: Evidências Empíricas de 2000 a 2023 | Auditossauros Pesquisa de mestrado analisa o impacto dos ciclos eleitorais no desempenho de 32 bancos brasileiros entre 2000 e 2023. Eleições gerais aumentam o ROA. Eleições municipais não têm efeito. Bancos públicos e privados respondem de forma diferente."> Eleições e Desempenho Bancário no Brasil: Evidências de 2000 a 2023">
Divulgação Científica · Dissertação de Mestrado

Eleições e
Desempenho
Bancário no Brasil

Evidências empíricas de 2000 a 2023: o que 96 trimestres de dados revelam sobre a relação entre ciclos eleitorais e a rentabilidade dos bancos brasileiros.

Autor Jacson Cruz do Nascimento
Instituição Universidade Católica de Brasília — UCB
Programa Mestrado em Economia de Empresas
Orientador Prof. Dr. José Angelo Divino
Defesa 12 de agosto de 2024 · Aprovado
Principais Achados
1
Eleições gerais aumentam o ROA dos bancos de forma positiva e significativa Confirmado
2
Eleições municipais não têm efeito significativo sobre ROA ou ROE Não significativo
3
Bancos públicos e privados respondem de forma distinta às variáveis políticas Assimetria confirmada
4
Spread bancário tem efeito amplificado sobre o ROE dos bancos públicos Interação significativa
01A Pesquisa

A pergunta que todo analista já fez, agora com resposta empírica

O desempenho dos bancos brasileiros é afetado pelos ciclos eleitorais? E se é, há diferença entre o impacto das eleições presidenciais e das eleições municipais? Bancos públicos e privados reagem da mesma forma? Estas perguntas circulam informalmente no mercado financeiro há décadas. A dissertação apresentada neste artigo as responde com dados.

A pesquisa Impacto das Eleições no Desempenho de Bancos Brasileiros analisa um painel balanceado de 32 instituições financeiras ao longo de 96 trimestres, do primeiro trimestre de 2000 ao quarto trimestre de 2023. O período abrange seis eleições presidenciais e seis eleições municipais, cobrindo governos de diferentes orientações ideológicas e distintos contextos econômicos, da estabilização pós-Real à pandemia.

Os resultados, obtidos por meio de modelos estático e dinâmico de efeitos fixos com estimador de Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) e erros padrão robustos, oferecem evidências quantitativas sobre uma relação que a literatura acadêmica internacional já documentou em outros países, mas que tinha lacunas importantes no contexto brasileiro.

Ficha da Pesquisa
Título Impacto das Eleições no Desempenho de Bancos Brasileiros
Autor Jacson Cruz do Nascimento
Instituição Universidade Católica de Brasília — UCB
Programa Pós-Graduação Stricto Sensu em Economia de Empresas
Orientador Prof. Dr. José Angelo Divino — UCB
Banca examinadora Prof. Dr. Matheus Silva de Paiva (UCB) · Prof. Dr. Fernando da Silva Vinhado (Banco do Brasil)
Defesa e aprovação 12 de agosto de 2024
Período analisado 1º trimestre de 2000 ao 4º trimestre de 2023 (96 trimestres)
02Metodologia

Como a pesquisa foi feita: dados, modelo e variáveis

A pesquisa utiliza um painel balanceado de dados trimestrais fornecidos pelo Banco Central do Brasil (Bacen) via portal if.data, complementados com informações eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e indicadores macroeconômicos do Bacen e do IBGE. As 32 instituições selecionadas são do consolidado bancário Tipo B1, aquelas que permaneceram ativas ao longo de todo o período, garantindo o balanceamento do painel.

Dimensões do Painel
32 Bancos analisados
96 Trimestres (2000–2023)
3.072 Observações totais
6 Eleições presidenciais
6 Eleições municipais
22 Variáveis no modelo

As variáveis dependentes são o ROA (Retorno sobre Ativos, Lucro Líquido / Ativo Total) e o ROE (Retorno sobre Patrimônio Líquido). As variáveis explicativas incluem indicadores internos dos bancos (índice de eficiência, endividamento, spread bancário, despesa de provisão, carteira de crédito, captações e margem de câmbio), variáveis macroeconômicas (Selic e IPCA), dummies eleitorais (eleições gerais e municipais) e interações entre as variáveis políticas e o tipo de controle (público ou privado).

Foram estimados dois modelos: o Modelo Estático, que captura relações contemporâneas, e o Modelo Dinâmico, que inclui a defasagem da variável dependente para capturar a persistência temporal do desempenho. Os testes de Levin-Lin-Chu e Im-Pesaran-Shin confirmaram estacionariedade das séries. Os erros padrão robustos foram aplicados para corrigir heterocedasticidade e autocorrelação identificadas pelos testes de Breusch-Pagan e Breusch-Godfrey.

A preparação inicial dos dados foi realizada em Power BI, e as estimativas foram executadas no RStudio (versão 4.2.3) com o pacote plm para modelos de painel.

Achados Principais
03Resultados

Quatro achados, o que os dados dizem

01
Eleições gerais aumentam o ROA dos bancos Modelo Dinâmico · ROA · Efeito positivo e significativo ao nível de 5%
Confirmado ✓
O que foi encontrado

Em anos de eleições gerais — presidenciais, estaduais e para o Congresso — o ROA dos bancos apresenta aumento médio estatisticamente significativo em relação a anos não eleitorais. O resultado é consistente nos três modelos estimados: estático, dinâmico e no subperíodo de 2012 a 2023, com nível de significância de 5% em todos eles. A magnitude do efeito e sua estabilidade ao longo de diferentes especificações reforçam a robustez do achado. Para referência, o coeficiente estimado no Modelo Dinâmico é de +0,0226 (p = 0,034).

Interpretação e contexto

A literatura internacional, em especial Drazen (2000) e Baer (2008), sugere que governos tendem a implementar políticas expansionistas em anos eleitorais, criando um ambiente macroeconômico mais favorável à atividade bancária. O aumento do crédito, a expansão da demanda e a redução percebida da incerteza no curto prazo do período eleitoral podem contribuir para a melhora dos resultados operacionais dos bancos.

Coeficiente (dinâmico) +0,0226 Aumento no ROA em anos de eleições gerais
Significância p = 0,034 Significativo ao nível de 5%
Robustez 3 modelos Estático, Dinâmico e subperíodo 2012-2023
Nota metodológica: o efeito estimado representa a variação média no ROA em anos de eleições gerais, controlando por indicadores internos dos bancos (eficiência, endividamento, spread, provisão, captações, carteira de crédito), variáveis macroeconômicas (Selic, IPCA) e efeitos fixos de cada instituição.
Eleições presidenciais deixam marca mensurável na rentabilidade sobre ativos dos bancos. O dado está nos 96 trimestres.

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02
Eleições municipais não têm efeito significativo Modelo Dinâmico · ROA e ROE · Efeito não detectado em nenhuma especificação (p > 0,10)
Não Significativo
O que foi encontrado

As eleições municipais não produziram efeito estatísticamente detectável sobre o ROA nem sobre o ROE dos bancos em nenhum dos modelos estimados — estático, dinâmico e no subperíodo de 2012 a 2023. Os p-valores ficaram bem acima do limiar convencional de 5% em todas as especificações, afastando a hipótese de impacto eleitoral municipal sobre a rentabilidade bancária. Para referência, os coeficientes estimados no Modelo Dinâmico foram de -0,0060 para o ROA (p = 0,393) e de -0,0406 para o ROE (p = 0,247).

Por que a diferença importa

A assimetria entre eleições gerais (significativas) e municipais (não significativas) não é trivial. Ela sugere que o canal de transmissão do ciclo político para o desempenho bancário opera em nível federal, via política monetária, crédito direcionado e orientação dos bancos públicos federais, e não no nível municipal. Eleições de prefeitos e vereadores, embora relevantes para outros setores econômicos, não alteram o ambiente financeiro do setor bancário de forma detectável no modelo.

Coeficiente ROA (dinâmico) -0,0060 Não significativo
Coeficiente ROE (dinâmico) -0,0406 Não significativo
P-valor ROA 0,393 Muito acima de 0,05
Implicação: o efeito eleitoral sobre o setor bancário é específico ao nível federal de governo, não é um fenômeno genérico de “anos eleitorais”. Modelos que tratam todos os anos eleitorais de forma homogênea provavelmente estão capturando apenas metade do fenômeno.
Não são as eleições em si que movem os bancos. É o nível de governo que elege quem decide a política bancária.

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03
Bancos públicos e privados respondem de forma distinta Interação Despesa de Provisão × Tipo de Controle · ROE · Efeito significativo ao nível de 5%
Assimetria confirmada
O que foi encontrado

A interação entre Despesa de Provisão para Créditos de Difícil Liquidação (DPCDL) e tipo de controle revelou que bancos públicos exibem sensibilidade significativamente maior a essa variável do que bancos privados. Um aumento na razão DPCDL/Ativo Total produz efeito muito mais expressivo sobre o ROE dos bancos públicos — resultado significativo ao nível de 5% no Modelo Dinâmico e consistente nas demais especificações. Nos bancos privados, a interação equivalente não se mostrou significativa. Para referência, o coeficiente da interação nos bancos públicos foi de +6,88 (p = 0,039).

Interpretação e contexto

Bancos públicos, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, operam sob influência da agenda de desenvolvimento econômico e social do governo federal. Em períodos eleitorais, a literatura aponta que instituições públicas são utilizadas como instrumentos de política (Sapienza, 2004; Dinc, 2005). Os resultados sugerem que os bancos públicos exibem maior sensibilidade política nas suas variáveis de risco de crédito, enquanto bancos privados mantêm comportamento mais estável e independente do ciclo eleitoral.

Coeficiente DPCDL:DTC +6,88 Efeito amplificado em bancos públicos
Significância p = 0,039 Significativo ao nível de 5%
Participação no ativo total 62,8% Bancos públicos na amostra (4T23)
Tipo de Banco Efeito de aumento na DPCDL sobre ROE Significativo?
PúblicoEfeito positivo e significativo (p = 0,039)Sim
Privado NacionalEfeito base menorNão isolado
Privado EstrangeiroEfeito base menorNão isolado
Nota: DTC = dummy tipo de controle (1 = banco público, 0 = banco privado). O coeficiente da interação mede o diferencial do efeito da DPCDL sobre o ROE dos bancos públicos em relação aos privados, controlando pelos demais fatores do modelo.
Bancos públicos e privados compartilham o mesmo ambiente econômico. Não necessariamente a mesma sensibilidade política.

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04
Spread bancário tem efeito amplificado no ROE dos bancos públicos Interação Spread × Tipo de Controle · ROE · p < 0,001 (altamente significativo)
Altamente Significativo
O que foi encontrado

A interação entre Spread Bancário e tipo de controle revelou o achado de maior robustez da pesquisa: bancos públicos se beneficiam do spread bancário de forma significativamente mais expressiva do que bancos privados. O efeito é altamente significativo no Modelo Dinâmico (p < 0,001) e se mantém consistente no Modelo Estático e no subperíodo de 2012 a 2023, sem exceção. Um aumento no spread bancário resulta em ganho de ROE substancialmente maior para as instituições públicas do que para as privadas nas mesmas condições. Para referência, o coeficiente da interação no Modelo Dinâmico foi de +1,95 (p < 0,001).

Por que bancos públicos se beneficiam mais do spread?

Bancos públicos operam com fontes de financiamento estruturalmente mais estáveis e, em alguns casos, mais baratas do que bancos privados, via depósitos judiciais, poupança compulsória e captações institucionais. Quando o spread sobe, a margem financeira dos bancos públicos aumenta de forma mais expressiva porque seu custo de captação varia menos. O resultado também pode refletir a maior escala e a carteira de crédito mais diversificada dessas instituições, que concentram 71,9% da carteira de crédito classificada da amostra.

Coeficiente Spread:DTC (dinâmico) +1,95 Efeito adicional do spread no ROE público
Significância p < 0,001 Altamente significativo (***)
Consistência 3 modelos Estático, Dinâmico e 2012-2023
Contextualização: os bancos públicos da amostra representam 62,8% do ativo total, 63,9% das captações e 71,9% da carteira de crédito classificada do setor B1 em dezembro de 2023. A magnitude do coeficiente e sua consistência em todos os modelos estimados tornam este o achado de maior robustez da pesquisa.
O spread alto beneficia o setor bancário. Beneficia os bancos públicos de forma ainda mais pronunciada. Os dados de 24 anos confirmam.

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Implicações
04Implicações e Limitações

O que os achados significam e o que a pesquisa não responde

Os resultados têm implicações diretas para diferentes públicos. Para auditores de instituições financeiras, o estudo sugere que a análise de desempenho de bancos públicos deve considerar o contexto eleitoral como variável de controle. Variações no ROE de bancos públicos em anos de eleições gerais que não sejam explicadas por fatores operacionais podem ter componente político mensurável.

Para gestores e analistas do setor financeiro, a assimetria entre eleições gerais e municipais oferece uma distinção operacional útil: modelos de projeção de rentabilidade bancária que são sensíveis ao ciclo eleitoral devem focar nos anos de eleição presidencial, não nos anos eleitorais em geral.

Para pesquisadores e acadêmicos, a pesquisa preenche uma lacuna na literatura nacional sobre a interação entre ciclos políticos e desempenho bancário no Brasil, um país com estrutura dual público-privada relevante e ciclo eleitoral bem definido. Os apêndices disponibilizam todas as estimativas dos modelos para replicação.

Embora o período abranja seis eleições presidenciais, apenas três presidentes distintos foram eleitos, com cinco dessas eleições resultando na vitória de candidatos de um mesmo partido. Essa concentração limitou a diversidade de políticas econômicas analisadas e representa a principal limitação do estudo.
Nascimento, J. C. — Dissertação, Cap. 5 (Conclusão), 2024

O próprio autor reconhece as limitações: o foco no contexto brasileiro e no período 2000-2023 restringe a generalização dos resultados. Pesquisas futuras poderiam incorporar dados internacionais comparativos, ampliar o período pós-2023 quando houver dados disponíveis, ou utilizar técnicas de machine learning e Processamento de Linguagem Natural (NLP) para capturar o impacto de notícias e discursos políticos sobre a percepção de mercado e a rentabilidade das instituições.

05Conexão · Auditossauros

Quando o Auditossauro foi para o mestrado e voltou com 96 trimestres de dados

A dissertação não nasceu de um tema abstrato de economia. Nasceu da observação acumulada de um auditor que, ao longo de anos de trabalho no setor financeiro, notou padrões no comportamento dos bancos em anos eleitorais que nenhum relatório padrão conseguia formalizar.

A pergunta era sempre a mesma, formulada de formas diferentes: o crédito realmente expande antes das eleições? Os bancos públicos de fato operam de forma diferente em anos eleitorais? O spread alto beneficia mais um tipo de instituição do que outro? Essas perguntas existem informalmente no mercado. O que a dissertação faz é respondê-las com metodologia.

O mestrado em Economia de Empresas da UCB ofereceu as ferramentas para transformar observação em dados, dados em modelos e modelos em evidência. A orientação do Prof. Dr. José Angelo Divino e a participação do Prof. Dr. Fernando da Silva Vinhado (Banco do Brasil) na banca foram fundamentais para que os resultados fossem ao mesmo tempo academicamente rigorosos e operacionalmente relevantes.

A série Auditossauros é construída sobre a mesma lógica da dissertação: o que todo mundo já suspeitava, mas que precisa ser medido antes de ser afirmado. Esta publicação une as duas linhas.

Ref.Referências Selecionadas

Referências da dissertação

[1]
Nascimento, Jacson Cruz do. Impacto das Eleições no Desempenho de Bancos Brasileiros. Dissertação (Mestrado em Economia de Empresas). Universidade Católica de Brasília, 2024. 74 f.
↗ Blog Auditossauros
[2]
Dinç, I. S. Politicians and banks: Political influences on government-owned banks in emerging markets. Journal of Financial Economics, v. 77, n. 2, p. 453-479, 2005.
[3]
Drazen, Allan. Political Economy in Macroeconomics. Princeton: Princeton University Press, 2000.
[4]
Sapienza, Paola. The effects of government ownership on bank lending. Journal of Financial Economics, v. 72, n. 2, p. 357-384, 2004.
[5]
Vinhado, F. S.; Divino, J. A. Determinantes da Rentabilidade das Instituições Financeiras no Brasil. Análise Econômica, v. 31, n. 59, 2013.
[6]
Baltagi, Badi H. Econometric Analysis of Panel Data. 4. ed. Chichester: Wiley, 2008.
[7]
Banco Central do Brasil. Portal if.data — Dados de Instituições Financeiras.
↗ bcb.gov.br/ifdata
A lista completa de 57 referências bibliográficas consta na dissertação original. As referências acima foram selecionadas por representarem os principais fundamentos teóricos dos achados discutidos neste artigo.
Dissertação MestradoEconomia BancáriaCiclos Eleitorais ROA ROEBancos PúblicosBancos Privados Efeitos FixosPainel de DadosSpread Bancário UCB2024Pesquisa Empírica
🎓

Auditossauros Dissertação

Quando a observação acumulada de anos em auditoria encontra metodologia econométrica. 96 trimestres. 32 bancos. Quatro achados.

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