Eleições e
Desempenho
Bancário no Brasil
Evidências empíricas de 2000 a 2023: o que 96 trimestres de dados revelam sobre a relação entre ciclos eleitorais e a rentabilidade dos bancos brasileiros.
A pergunta que todo analista já fez, agora com resposta empírica
O desempenho dos bancos brasileiros é afetado pelos ciclos eleitorais? E se é, há diferença entre o impacto das eleições presidenciais e das eleições municipais? Bancos públicos e privados reagem da mesma forma? Estas perguntas circulam informalmente no mercado financeiro há décadas. A dissertação apresentada neste artigo as responde com dados.
A pesquisa Impacto das Eleições no Desempenho de Bancos Brasileiros analisa um painel balanceado de 32 instituições financeiras ao longo de 96 trimestres, do primeiro trimestre de 2000 ao quarto trimestre de 2023. O período abrange seis eleições presidenciais e seis eleições municipais, cobrindo governos de diferentes orientações ideológicas e distintos contextos econômicos, da estabilização pós-Real à pandemia.
Os resultados, obtidos por meio de modelos estático e dinâmico de efeitos fixos com estimador de Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) e erros padrão robustos, oferecem evidências quantitativas sobre uma relação que a literatura acadêmica internacional já documentou em outros países, mas que tinha lacunas importantes no contexto brasileiro.
Como a pesquisa foi feita: dados, modelo e variáveis
A pesquisa utiliza um painel balanceado de dados trimestrais fornecidos pelo Banco Central do Brasil (Bacen) via portal if.data, complementados com informações eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e indicadores macroeconômicos do Bacen e do IBGE. As 32 instituições selecionadas são do consolidado bancário Tipo B1, aquelas que permaneceram ativas ao longo de todo o período, garantindo o balanceamento do painel.
As variáveis dependentes são o ROA (Retorno sobre Ativos, Lucro Líquido / Ativo Total) e o ROE (Retorno sobre Patrimônio Líquido). As variáveis explicativas incluem indicadores internos dos bancos (índice de eficiência, endividamento, spread bancário, despesa de provisão, carteira de crédito, captações e margem de câmbio), variáveis macroeconômicas (Selic e IPCA), dummies eleitorais (eleições gerais e municipais) e interações entre as variáveis políticas e o tipo de controle (público ou privado).
Foram estimados dois modelos: o Modelo Estático, que captura relações contemporâneas, e o Modelo Dinâmico, que inclui a defasagem da variável dependente para capturar a persistência temporal do desempenho. Os testes de Levin-Lin-Chu e Im-Pesaran-Shin confirmaram estacionariedade das séries. Os erros padrão robustos foram aplicados para corrigir heterocedasticidade e autocorrelação identificadas pelos testes de Breusch-Pagan e Breusch-Godfrey.
A preparação inicial dos dados foi realizada em Power BI, e as estimativas foram executadas no RStudio (versão 4.2.3) com o pacote plm para modelos de painel.
Quatro achados, o que os dados dizem
Em anos de eleições gerais — presidenciais, estaduais e para o Congresso — o ROA dos bancos apresenta aumento médio estatisticamente significativo em relação a anos não eleitorais. O resultado é consistente nos três modelos estimados: estático, dinâmico e no subperíodo de 2012 a 2023, com nível de significância de 5% em todos eles. A magnitude do efeito e sua estabilidade ao longo de diferentes especificações reforçam a robustez do achado. Para referência, o coeficiente estimado no Modelo Dinâmico é de +0,0226 (p = 0,034).
A literatura internacional, em especial Drazen (2000) e Baer (2008), sugere que governos tendem a implementar políticas expansionistas em anos eleitorais, criando um ambiente macroeconômico mais favorável à atividade bancária. O aumento do crédito, a expansão da demanda e a redução percebida da incerteza no curto prazo do período eleitoral podem contribuir para a melhora dos resultados operacionais dos bancos.
As eleições municipais não produziram efeito estatísticamente detectável sobre o ROA nem sobre o ROE dos bancos em nenhum dos modelos estimados — estático, dinâmico e no subperíodo de 2012 a 2023. Os p-valores ficaram bem acima do limiar convencional de 5% em todas as especificações, afastando a hipótese de impacto eleitoral municipal sobre a rentabilidade bancária. Para referência, os coeficientes estimados no Modelo Dinâmico foram de -0,0060 para o ROA (p = 0,393) e de -0,0406 para o ROE (p = 0,247).
A assimetria entre eleições gerais (significativas) e municipais (não significativas) não é trivial. Ela sugere que o canal de transmissão do ciclo político para o desempenho bancário opera em nível federal, via política monetária, crédito direcionado e orientação dos bancos públicos federais, e não no nível municipal. Eleições de prefeitos e vereadores, embora relevantes para outros setores econômicos, não alteram o ambiente financeiro do setor bancário de forma detectável no modelo.
A interação entre Despesa de Provisão para Créditos de Difícil Liquidação (DPCDL) e tipo de controle revelou que bancos públicos exibem sensibilidade significativamente maior a essa variável do que bancos privados. Um aumento na razão DPCDL/Ativo Total produz efeito muito mais expressivo sobre o ROE dos bancos públicos — resultado significativo ao nível de 5% no Modelo Dinâmico e consistente nas demais especificações. Nos bancos privados, a interação equivalente não se mostrou significativa. Para referência, o coeficiente da interação nos bancos públicos foi de +6,88 (p = 0,039).
Bancos públicos, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, operam sob influência da agenda de desenvolvimento econômico e social do governo federal. Em períodos eleitorais, a literatura aponta que instituições públicas são utilizadas como instrumentos de política (Sapienza, 2004; Dinc, 2005). Os resultados sugerem que os bancos públicos exibem maior sensibilidade política nas suas variáveis de risco de crédito, enquanto bancos privados mantêm comportamento mais estável e independente do ciclo eleitoral.
| Tipo de Banco | Efeito de aumento na DPCDL sobre ROE | Significativo? |
|---|---|---|
| Público | Efeito positivo e significativo (p = 0,039) | Sim |
| Privado Nacional | Efeito base menor | Não isolado |
| Privado Estrangeiro | Efeito base menor | Não isolado |
A interação entre Spread Bancário e tipo de controle revelou o achado de maior robustez da pesquisa: bancos públicos se beneficiam do spread bancário de forma significativamente mais expressiva do que bancos privados. O efeito é altamente significativo no Modelo Dinâmico (p < 0,001) e se mantém consistente no Modelo Estático e no subperíodo de 2012 a 2023, sem exceção. Um aumento no spread bancário resulta em ganho de ROE substancialmente maior para as instituições públicas do que para as privadas nas mesmas condições. Para referência, o coeficiente da interação no Modelo Dinâmico foi de +1,95 (p < 0,001).
Bancos públicos operam com fontes de financiamento estruturalmente mais estáveis e, em alguns casos, mais baratas do que bancos privados, via depósitos judiciais, poupança compulsória e captações institucionais. Quando o spread sobe, a margem financeira dos bancos públicos aumenta de forma mais expressiva porque seu custo de captação varia menos. O resultado também pode refletir a maior escala e a carteira de crédito mais diversificada dessas instituições, que concentram 71,9% da carteira de crédito classificada da amostra.
O que os achados significam e o que a pesquisa não responde
Os resultados têm implicações diretas para diferentes públicos. Para auditores de instituições financeiras, o estudo sugere que a análise de desempenho de bancos públicos deve considerar o contexto eleitoral como variável de controle. Variações no ROE de bancos públicos em anos de eleições gerais que não sejam explicadas por fatores operacionais podem ter componente político mensurável.
Para gestores e analistas do setor financeiro, a assimetria entre eleições gerais e municipais oferece uma distinção operacional útil: modelos de projeção de rentabilidade bancária que são sensíveis ao ciclo eleitoral devem focar nos anos de eleição presidencial, não nos anos eleitorais em geral.
Para pesquisadores e acadêmicos, a pesquisa preenche uma lacuna na literatura nacional sobre a interação entre ciclos políticos e desempenho bancário no Brasil, um país com estrutura dual público-privada relevante e ciclo eleitoral bem definido. Os apêndices disponibilizam todas as estimativas dos modelos para replicação.
Embora o período abranja seis eleições presidenciais, apenas três presidentes distintos foram eleitos, com cinco dessas eleições resultando na vitória de candidatos de um mesmo partido. Essa concentração limitou a diversidade de políticas econômicas analisadas e representa a principal limitação do estudo.Nascimento, J. C. — Dissertação, Cap. 5 (Conclusão), 2024
O próprio autor reconhece as limitações: o foco no contexto brasileiro e no período 2000-2023 restringe a generalização dos resultados. Pesquisas futuras poderiam incorporar dados internacionais comparativos, ampliar o período pós-2023 quando houver dados disponíveis, ou utilizar técnicas de machine learning e Processamento de Linguagem Natural (NLP) para capturar o impacto de notícias e discursos políticos sobre a percepção de mercado e a rentabilidade das instituições.
Quando o Auditossauro foi para o mestrado e voltou com 96 trimestres de dados
A dissertação não nasceu de um tema abstrato de economia. Nasceu da observação acumulada de um auditor que, ao longo de anos de trabalho no setor financeiro, notou padrões no comportamento dos bancos em anos eleitorais que nenhum relatório padrão conseguia formalizar.
A pergunta era sempre a mesma, formulada de formas diferentes: o crédito realmente expande antes das eleições? Os bancos públicos de fato operam de forma diferente em anos eleitorais? O spread alto beneficia mais um tipo de instituição do que outro? Essas perguntas existem informalmente no mercado. O que a dissertação faz é respondê-las com metodologia.
O mestrado em Economia de Empresas da UCB ofereceu as ferramentas para transformar observação em dados, dados em modelos e modelos em evidência. A orientação do Prof. Dr. José Angelo Divino e a participação do Prof. Dr. Fernando da Silva Vinhado (Banco do Brasil) na banca foram fundamentais para que os resultados fossem ao mesmo tempo academicamente rigorosos e operacionalmente relevantes.
A série Auditossauros é construída sobre a mesma lógica da dissertação: o que todo mundo já suspeitava, mas que precisa ser medido antes de ser afirmado. Esta publicação une as duas linhas.
Referências da dissertação
↗ Blog Auditossauros
↗ bcb.gov.br/ifdata
Auditossauros Dissertação
Quando a observação acumulada de anos em auditoria encontra metodologia econométrica. 96 trimestres. 32 bancos. Quatro achados.
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